O desafio do envelhecimento saudável

17
ago
O desafio do envelhecimento saudável
O desafio do envelhecimento saudável
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Perder a habilidade de andar, de enxergar, de desenvolver atividades simples do dia a dia ou adquirir uma doença grave e depender das pessoas: esse talvez tenha sido o estereótipo, por muitos anos, dos idosos, entretanto, o cenário vem mudando e, com o avanço dos estudos em relação ao envelhecimento e à contribuição da Medicina, a população considerada idosa tem demonstrado que investir na qualidade de vida é um importante passo para evitar problemas na velhice.

Para contradizer a figura do idoso que se acostumava a uma vida sedentária, o trabalho do psicogeriatra Vinícius Faria (CRM 145.761), “Memória: doença ou envelhecimento normal”, chama a atenção:  é tão importante cuidar da saúde da mente quanto do corpo físico para alcançar uma velhice mais sadia e sem o comprometimento das funções cognitivas em que os idosos estão mais suscetíveis.

Formado pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), no Paraná, o médico já serviu o Exército, em São Vicente (SP), e foi residente em Psiquiatria  e em Psicogeriatria na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Atuou como chefe de plantão e como professor na mesma instituição e faz parte como membro efetivo da Associação Brasileira de Psiquiatria, e participa da atual diretoria do Departamento de Psiquiatria do Centro Médico de Ribeirão Preto. Na entrevista a seguir, Vinícius explica que a frequência dos “lapsos” de memória pode caracterizar problema de saúde, bem como a necessidade de observar se eles estão acompanhados de outras alterações cognitivas.

Explique um pouco sobre o estudo “Memória: doença ou envelhecimento normal?”
A sensação de estar perdendo a memória é muito frequente. Geralmente, as pessoas começam a se incomodar com isso a partir dos 40 ou 50 anos. Por isso, tenho buscado levar informação à população em relação ao processo de envelhecimento normal da memória e outras funções cognitivas, assim como as situações em que deve soar o sinal de alerta para alguma doença que possa estar comprometendo a memória. Nem sempre é fácil fazer essa distinção.

Como a Psicogeriatria atua?
Esta é a especialidade médica que cuida da saúde mental de idosos, que, no Brasil, consideramos a partir dos 60 anos. O psicogeriatra precisa, antes de tudo, ser médico, depois psiquiatra e, por último, especializar-se em psicogeriatria. Buscamos uma visão global do processo de envelhecimento mental, não só em termos de diagnóstico e tratamento, mas também de promoção de saúde mental e prevenção de transtornos mentais.

Como ocorre  o processo de envelhecimento?
O envelhecimento é um processo natural e que não deve ser visto como sinônimo de adoecimento. A Medicina contribuiu muito para o aumento da expectativa de vida e o grande desafio, agora, é envelhecer com qualidade, principalmente em países em desenvolvimento, como o Brasil. Em situações normais, não utilizamos 100% de nossa capacidade física e mental; temos uma reserva a ser usada em momentos de maior demanda. É fácil perceber isso quando estamos caminhando e, por algum motivo, precisamos correr. O corpo se adapta rapidamente. Com o envelhecimento, essa reserva vai diminuindo progressivamente, de modo que o idoso tem mais dificuldade em se adaptar a novas demandas, principalmente as mais abruptas. Isso acontece em aspectos físicos e mentais (divisão didática, pois, na prática, corpo e mente são integrados e indivisíveis).

Quais são as doenças da memória e o que acontece fisiologicamente para que elas ocorram?
Diversas situações podem levar à perda de memória, mas, quando falamos da população idosa, as mais importantes são as síndromes demenciais, das quais a mais frequente e conhecida é a demência na Doença de Alzheimer. Nesse caso, o envelhecimento cerebral ocorre de maneira mais acelerada do que o esperado e ocorre um acúmulo acentuado de determinadas substâncias dentro e fora dos neurônios, causando a perda de função e até mesmo a morte desses neurônios, comprometendo a atividade do cérebro de muitas maneiras. Transtornos mentais como depressão e ansiedade também podem atrapalhar a memória, até mesmo em jovens.

A partir de qual idade as pessoas começam a perder a capacidade de armazenar informações e apresentar falhas na memória?
Em princípio, quando falamos de envelhecimento normal, também chamado de senescência, a capacidade de armazenar informações não se altera. O que acontece é que a velocidade de processamento de informações pelo cérebro fica menor, consequentemente, desempenhar mais de uma tarefa ao mesmo tempo fica mais difícil e, eventualmente, falhas de memória podem acontecer. A informação a ser lembrada está guardada no cérebro, mas ele tem uma dificuldade momentânea em acessá-la. Mesmo em pessoas saudáveis, isso começa a ficar mais evidente a partir dos 60 anos ou, às vezes, até um pouco antes.  No envelhecimento saudável, espera-se que a perda de memória seja mínima, sem comprometer as atividades diárias do idoso. Têm idosos que mantém a memória intacta mesmo aos 80 ou 90 anos.

 A avalanche de informações e os meios de propagação são complicadores para o armazenamento pelo cérebro?
Depende. Usada de maneira correta, a tecnologia pode ser muito útil, até mesmo para treinar algumas funções do cérebro. O problema é quando dividimos nossa atenção entre diversas tarefas ou dispositivos ao mesmo tempo. Isso é terrível para o cérebro, principalmente para o do idoso, que precisa concentrar-se mais em uma única tarefa para conseguir um bom desempenho.

A perda da memória está ligada ao processo de envelhecimento?
Sim e não. Quando falamos de memória, na verdade, estamos falando de memórias, no plural.  Temos vários tipos de memória, que variam quanto à duração e à função que desempenham. Por exemplo: temos memórias de curtíssima, curta e longa duração. Temos memórias relacionadas a vocabulário, conhecimentos gerais e fatos ocorridos em nossas vidas, entre muitas outras. Memórias de vocabulário e de conhecimentos gerais tendem a ser preservadas no envelhecimento normal, enquanto memórias de acontecimentos de vida, principalmente as mais recentes, tendem a se perder com o passar dos anos e isso é normal, na maioria das vezes.

Há uma forma de driblar o cérebro e “retardar” o envelhecimento da memória?
Sem dúvida. Manter hábitos saudáveis ajuda muito. Refiro-me à prática de atividade física regular, à alimentação saudável e ao não consumo de substâncias sabidamente nocivas à saúde do cérebro, como, por exemplo, o cigarro. Manter-se socialmente e intelectualmente ativo é outro fator de proteção à perda precoce de memória. Caso a pessoa sofra de algum transtorno mental, como a depressão, ou doenças crônicas como diabetes e hipertensão, é importante que sejam tratadas e controladas. Existem, ainda,  estratégias que funcionam como ginástica para o cérebro e ajudam a “fortalecer” a memória. Chamamos isso de treino neurocognitivo e pode ser indicado para pessoas saudáveis de qualquer idade ou mesmo para quem sofre de alguma doença que esteja afetando a memória ou outras funções cognitivas.

Por que é mais comum perder a lembrança de fatos recentes e arquivar acontecimentos mais antigos?
As memórias dependem de vários fatores para serem retidas e armazenadas no cérebro. Os principais são relevância da informação, frequência da exposição àquela informação e carga emocional presente no momento do contato com a informação. Elas também não são estáticas: vão se renovando e modulando de acordo com relevância, frequência e emoções, e vão “mudando de lugar” dentro do cérebro, até estarem firmemente consolidadas ou simplesmente serem apagadas em algum momento que não forem mais úteis ou relevantes.

Em caso de esquecimentos constantes, o que deve ser observado para distinguir um simples lapso de memória ou distração de um quadro mais sério de perda da memória?
Deve-se observar justamente a frequência dos lapsos, bem como a importância do fato esquecido e o impacto que aquilo possa causar na vida da pessoa. O mais importante é que se a perda de memória estiver comprometendo o dia a dia, isso tem grande chance de estar relacionado à alguma doença, principalmente se estiver acompanhado de outras alterações cognitivas e de comportamento, como a falta de interesse. Na Doença de Alzheimer, geralmente, a pessoa não percebe que está perdendo a memória e isso pode gerar estresse no relacionamento com pessoas mais próximas.
 
Como os transtornos psiquiátricos se manifestam nos idosos?

O psicogeriatra tem que fazer uma avaliação bem ampla e pensar em diversos cenários. Uma situação é quando a pessoa já sofria de algum transtorno mental na juventude e envelhece com ele. Outra situação  ocorre com a pessoa que passou a juventude mentalmente saudável e adoece tardiamente. Há, ainda, os transtornos relacionados à cognição, como a Doença de Alzheimer. É bastante complexo. Depressão no idoso, por exemplo, geralmente não aparece com a clássica “tristeza” ou perda do prazer nas atividades. Pode se manifestar, muitas vezes, com aumento da queixa de sintomas físicos, como dores ou cansaço, e isolamento social, sentimento de inutilidade. Devemos estar atentos às mudanças de comportamento e, principalmente, à funcionalidade.  Cuidado com a clássica frase “é normal da idade”.

Diante de tantos estímulos, bem como do avanço da tecnologia, é possível que a geração mais jovem que, inevitavelmente, tem mais contato com esses estímulos, tenha mais possibilidade de sofrer com a perda de memória? 

Há várias maneiras de se observar esse fenômeno. Num futuro mais próximo, a expectativa é que o número de idosos aumente exponencialmente e, consequentemente, as doenças mais típicas dessa idade, incluindo as relacionadas à memória, acompanhem esse aumento. Em um futuro um pouco mais distante, a tecnologia estará a nosso favor, no que se refere à promoção de saúde, diagnóstico precoce e tratamento. Além disso, há a perspectiva da integração de tecnologia digital aos nossos sistemas orgânicos, criando talvez, “super-humanos” com capacidade cognitiva ampliada. É viver para ver.

Fonte: Revide Saúde